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quarta-feira, 9 de julho de 2025

 Saga de uma familia Judia 

 

Em 1492 , os reis católicos Fernando e Isabel expulsaram os judeus da Espanha. O rei de Portugal, D. João II , permitiu que eles entrassem em Portugal mediante o pagamento de 8 cruzados por pessoa, mas deveriam deixar o pais na prazo de 8 messes, como nem todos tinham condições financeiras para isso, a grande maioria continuou no pais.

Em 1493, D. João ordenou que os judeus, que até então não haviam imigrado, deveriam ser vendidos como escravos e entre eles estava Abgail Curriel, uma mocinha apelidada de Pucarinha  comprada como escrava por D. Gerônimo de Saldanhã e Bovadilha nobre espanhol residente em Portugal. D. Gerônimo teve com a escrava dois filhos naturais Fernando Nunes e Duarte Nunes de Coimbra, que em 1497 foram batizados á força junto da mãe e outros ilhares de judeus sefarditas, passando a fazer parte dos cristãos novos, nova classe social-religiosa que assim se diferenciava dos cristãos velhos, já de antiga ascendência cristã.

Fernando Nunes retornou ao judaísmo, emigrou para a Turquia e, em 1560, já bem velho, era medico na corte do sultão.

Duarte Nunes, aparentemente católico, permaneceu em Portugal , estabelecido como comerciante de tecidos em Coimbra e casado com Gracia de Vitoria, também cristã nova, seus filhos se espalharam pelo mundo, Francisco de Vitoria revelou-se um católico fervoroso, veio para a América, foi bispo de Tucumán, Argentina e arcebispo do Mexico.

Diogo Peres da Costa voltou ao judaísmo, mudou o nome para Jacob Curriel foi para a Venezuela e Salônica.

Felipa, filha única ficou em Portugal e casou com um comerciante também cristão novo , um de seus netos entretanto veio para o Brasil, chamava-se Benjamin Benveniste, mas mudou o nome para Duarte Ramires de Leon, querendo assim evidenciar sua origem nobre, pois descendia de Ramiro II, rei de Leon, Asturias e Galiza. Radicou-se no Rio de Janeiro onde em 1617 se casou com Beatriz Mendes, dedicou-se a produção de açúcar , sendo proprietário do Engenho Colubandê , em São Gonçalo, o casal teve 10 filhos.

Mais tarde Duarte, talvez temendo a inquisição que já começava a atuar no Brasil, vendeu o engenho, e com vários filhos se mudou para Amsterdã, onde já tinha parentes. Tudo indica que 4 de seus filhos ficaram no Rio de Janeiro, 2 mulheres com seus maridos senhores de engenho, caíram nas garras da Inquisição, e o mesmo aconteceu com um dos filhos Joan Mendes de Leon filho caçula que casou com uma índia Francisca Correa de Sousa. Os índios de modo geral eram tutelados pelo rei e protegidos pela igreja o que de certa forma os protegia da Inquisição,

 Continua                      

 

Além do mais Francisca tinha uma notável ascendência , neta de Araribóia, o cacique índio que ajudara Estácio de Sá a expulsar os franceses do Rio de Janeiro, em 1567. Por isso nem João nem seus descendentes foram importunados pela Inquisição, mas não escaparam da discriminação racial imposta pelo Estatuto da Pureza de Sangue que impedia, até a sétima geração, que descendentes de judeus, árabes, índios, e negros fossem funcionários públicos, padres, eleitos, militares.

Uma trineta de João Mendes de Leão e de Francisca, Rita Joaquina Maciel, casou-se na capitania de Minas Gerais em 1793 com Manoel Joaquim Ribeiro do Vale, de ascendência paulista e açoriana cristãos velhos tradicionais. Mesmo assim, o marques de Pombal ter abolido a distinção entre cristão novo e cristão velho, o estigma de “sangue impuro” não abandonou a família mesmo vivendo na sociedade ela vivia insegura com o preconceito e ao que tudo indica somente após a proclamação da republica Julião Ribeiro Salgado sexto neto do casal judeu/índia João e Francisca e 11º neto da matriarca judia Abigail Curriel, foi eleito juiz de paz em Santa Rosa de Viterbo e consegui a patente de capitão da Guarda Nacional. Os descendentes de  João e Francisca se espalharam pelo Brasil e muitos voltaram para Portugal e outros países europeus onde voltaram a antiga crença.

Mas com advento do nazismo, foram em sua grande maioria exterminados nos campos de concentração durante a Segunda Guerra Mundial. Por ironia do destino, escaparam das fogueiras da Inquisição, mas pereceram nas câmaras de gás do Holocausto.

Por Paulo Ribeiro de Tarso          

 

quarta-feira, 16 de março de 2022

                                                       Caçar de Tirisco

A história de caçar Tirisco em Fartura começou nos anos 50 com Otto Ribeiro que era sobrinho do Cel Marcos Ribeiro, o pai dele se mudou para Maracaí e ele sempre que podia vinha para Fartura para caçar.
Certa vez em Maracaí, perguntaram pra ele, por que ir tão longe pra caçar e ele respondeu que ia caçar em Fartura, porque Fartura era único lugar que tinha Tirisco.
Algum tempo depois estando algumas pessoas de Maracaí em Fartura, perguntaram o que era Tirisco e onde encontrar, a pessoa indagada já sabendo do história contada pelo Otto e querendo se divertir contou que Tirisco era um animal que só existia nas margens do Rio Itararé e que era caçado a noite, e que era preciso levar uma lata e ficar batendo nela com um pedaço de pau e ficar chamando o Tirisco pelo nome.
A brincadeira foi tão inusitada que se espalhou, e praticamente virou uma mania na cidade fazer isso com visitantes desavisados. Apenas mudaram o local da caçada não era mais no Rio Itararé, mas sim locais próximos a cidade, o antigo matadouro era o local mais usado.
Não se sabe quando estas caçadas pararam de acontecer.

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2022

 Retirado da autobiografia de Vitor Deocleciano Ribeiro

Minha aventura em Fartura

Em 1890 resolvi permutar a parte que eu tinha na fazenda “Jamaica” herança de meu pai, por partes de terras que meu irmão Quincas tinha na chácara e na fazenda “Santa Rita” em Fartura em sociedade que ele tinha com o José Deocleciano, nosso mano, parte que ele havia recebido de Carlos, em pagamento do que este lhe devia. Firmando o negócio verbalmente, acordou-se que a escritura seria outorgada oportunamente e diretamente pelo Carlos, com quem ele ainda tinha contas a acertar. Pelo que havíamos combinado, eu daria minha parte pelas dele, sem outro ônus para qualquer de nós.

Nessa pressuposição, poucos dias depois, parti para Fartura a tomar conta daquilo que julgava ser meu.

Não posso deixar de aludir aqui a circunstância que, ao relembra-la, trás me lagrimas aos olhos e tristeza no coração! De quando me transportei a Fartura? – contrariando minha boa e santa Mãe! Pois ela mais uma vez me falou que não fosse, e eu não quis ouvi-la. Por que a contrariei assim? Como me arrependo hoje.     

Chegando a Fartura em meados de 1890, moço com intrepidez e disposição para o trabalho , meti mãos a obra. De entrada, propus ao socio- meu mano Zeca – dispensarmos o fiscal da lavoura e o feitor da turma , passando eu a exercer as funções deste e ele a de fiscal.

E, com assiduidade e esmero , procurava desempenhar o meu cargo . Assim esperançado e relativamente satisfeito, via transcorrer os primeiros dias de sociedade, quando comecei a notar que, á medida que circulava a noticia do afastamento do nosso mano Carlos da fazenda e da minha entrada como socio desta, iam aparecendo os credores da firma , que se julgava extinta , procurando receber o que lhes era devido.

Embora fugindo  ao objetivo que dita estas notas , que é tratar apenas do meu “ego” , julgo interessar aqui um explicação.

A fazenda Santa Rita foi adquirida em 1890 por Quincas e Carlos, quase que em mata bruta , tendo este empatado nesse negocio todo o pequeno capital que possuía. Pelo que combinaram, a cargo de Quincas ficaria o fornecimento de numerário necessário á abertura , montagem, e custeio da propriedade , e a cargo de Carlos a administração. É bom que se saiba também que, por essa época , a Sorocabana só chegava a Botucatu, indo mais tarde para Avaré e desta para Cerqueira Cesar , sendo este o ponto mais perto de embarque durante a vigência esta sociedade.

O Carlos , obedecendo aos impulsos do seu temperamento arrojado e impetuoso , abrindo clareiras em pleno coração da mata virgem, plantou , só de uma vez , cem mil cafeeiros; construiu casas e formou pastagens. Lutou durante anos com transporte distante , falta de braços e as geadas que, periodicamente , castigavam a lavoura.

Fez tudo que era preciso, e também o que não precisava, segundo alegava seu socio , Quincas , exemplificando: comprou mais uma fazenda , onde assentou uma maquina de beneficiar café , abriu casas de negócio em Fartura , no Retiro e na Fazenda, e comprou ate uma demanda na Fazenda Vergueiro , cuja propriedade tentou tomar de assalto, valendo-lhe a aventura um processo , do qual se livrou. O Quincas desempenhou também a parte que lhe tocava, fornecendo não só dinheiro para custeio , mas também braços para a lavoura , pois , de Santa Rita , remeteu-lhe  dezenas e dezenas de famílias de colonos.

Ao cabo de 8 anos de sociedade , por se achar em crise , exigiu-lhe uma prestação de contas , da qual resultou Carlos ficar devendo a Quincas 250:000$000, por uma letra de câmbio , cujo titulo nunca foi resgatado.

Decepcionado com o resultado a que havia chegado , o Quincas permutou a parte que lhe pertencia na aludida fazenda, com  que o Zeca “ José Deocleciano Ribeiro” , nosso mano possuía na Fazenda “Jamaica”, em Santa Rita , tornando se este , assim,    socio de Carlos. Essa sociedade durou pouco.

Desalentado com a crise que já vinha de longe e que parecia eternizar-se , Carlos propôs a Quincas a entrega da parte da fazenda que lhe pertencia , em pagamento do que lhe devia , assumindo também este a responsabilidade proporcional , numa divida hipotecaria que haviam contraído com João Procópio, Irmãos e Cia.

 Aceito o negocio, Carlos retirou-se da fazenda, sem ajustar as contas com o Zeca, assumindo este, assim, e tacitamente , todos os compromissos contraídos pela firma extinta , os quais orçavam em mais de uma centena de contos. Esta circunstancia , foi omitida ao Quincas , quando aceitou a proposta de Carlos, e consequentemente , a mim , na ocasião em que entabolei negócio com o primeiro , decorrendo  dessa omissão a surpresa que me causou , ao saber da existência de dividas , pelas quais, não me havia responsabilizado , e que, ater que pagar, modificaria completamente o negocio, como foi combinado e cuja efetivação dependia de escritura.

Ora, muito bem! Encerrando aqui o parêntesis que abrimos para esta explanação  interessante , retornemos ao começo da nossa meada.

Como atras foi dito, causaram-me    surpresa o aparecimento de dividas , cuja existência ignorava e pelas quais não devia responsabilizar-me  , ainda mais tratando-se   de um negocio dependendo de escritura.

Não obstante estas circunstâncias, mas deixando-me levar pela inexperiência da idade, pelas solicitações de meu mano José Deocleciano, de quem já me considerava socio ; por ignorar também a responsabilidade de um avalista de títulos , e, a despeito da relutância no começo, acabei avalisando as letras na importância de cêrca de cem contos de réis ... No pé em que estavam os negócios , tendo já transcorrido alguns meses , durante os quaes pude estudar bem a situação da firma , da qual deveria ser um dos socio sucessores , e chegando á conclusão de que se tratava de uma sociedade falida, tal era o vulto dos compromissos , a falta de recursos e, sobretudo , de credito , propus ao José Deocleciano ir a Santa Rita , tentar junto ao credor hipotecário , não só uma prorrogação do contrato como também mais um empréstimo , sob penhor dos frutos , pois , sem credito e sem dinheiro , seria materialmente impossível tratarmos a lavoura.

Devo dizer que, quando parti para essa missão, levava a deliberação de procurar o Quincas e desfazer o negocio , não voltando mais a Fartura , pois a transação , que se podia considerar infeliz , entre mim e aquele que apenas acabava de ser meu tutor , nem para  ele ficaria bem. Por essa ocasião , o Quincas , por dificuldades financeiras e por incompatibilidade com o credor hipotecário da fazenda Jamaica , já havia passado ao nosso cunhado Severino Meireles a gerencia dessa, com procuração geral da minha mãe , e transferira-se para a sua fazenda em Santa Rosa.

Evitando falar pessoalmente ao mano sobre as minhas intenções de desfazer o negocio , encarreguei o Severino de transmiti-las , assim como os motivos que mais ditaram , com cuja decisão ele concordou , ficando assim sem efeito o nosso compromisso que era apenas verbal.

Não posso esquecer me de que fiquei livre do negocio mas que meus endossos lá ficaram a me apoquentar , e por muitos anos! Uns prescreveram outros foram resgatados pelo José Deocleciano , cerca de 20 contos por mim. Foi esse preço da minha aventura em Fartura.

Muito embora ao deixar a fazenda fosse meu proposito não voltar- repito- com tudo isso , procurei desempenhar com desvelo a incumbência que  que trouxe de tentar obter de João Procópio o custeio da mesma.

Malograda a  tentativa ,  a despeito do esforço despendido ,foi com grande e sincero pesar que transmiti ao José Deocleciano, não só esta noticia , como também a minha resolução irrevogável , de não mais voltar. Lembro-me de que ele continuou lutando sozinho por mais um tempo ; vencido . afinal por obstáculos insuperáveis , acabou entregando ao credor hipotecário tudo quanto possuía e tudo foi mais tarde adjudicado Dona Mariana C. de Azevedo , por herança recebida de João Procópio.

Nesse tempo meu tio Manoel Ribeiro entra em contato comigo comunicando que estava voltando para Santa Rita e me oferecia sua fazenda por 50 contos de réis, comprei em parceria com meu mano Jonas e três dias depois pegava a escritura da fazenda, a qual era constituída de 500 alqueires de terras e culturas sessenta mil cafeeiros abandonados , casa de morada , e poucas benfeitorias mais.

Em memória de nossa boa mãe Ana dei a propriedade a denominação de “Fazenda Santana”, fazendeiro arregacei as mangas e pus -me a trabalhar. lutando com a falta de transporte , falta de braços e, principalmente , falta de preços para os produtos, consegui , mesmo assim, em 18 meses , restaurar 30 mil pés e construir as casas necessárias á  sua colonização. Escoava assim o ano de 1902 esperava que esse ano, com o produto da safra , cobrir todas as despesas e ainda sobrar nos alguma coisa.

Mas, “ o homem põe e Deus dispõe “-diz o ditado... e assim que chegou o dia fatídico , no dia 10 de novembro de 1902 , já nos seus alvores , viam-se do lado do nascente nuvens avermelhadas pressagiando tempestade à tarde.

Entretanto , o sol apareceu rutilante e até uma hora nada de extraordinário se notava no firmamento , a não ser o ar pesado , abafadiço. Porem, dessa hora em diante , começaram a formar-se nuvens , aqui e acolá, que se foram aos poucos adensando. Logo depois já constituíam verdadeiros rolos de fumo , que corriam de um lado para outro. 

O vento então já sussurrava alucinante , contorcendo os arvoredos. Os trovões  ribombavam ,a começo, ao longe, mas agora perto. Ate que afinal desabou a tempestade , com brutal violência, acompanhada de abundantes e grossos granizos! Foram de 15 a 20 minutos de ameaça e terror. Passado o furacão , por todo lado só se via a devastação, a ruina! As arvores foram despojadas de todas as folhas e dos frutos, da lavoura de café, nem as haste finas foram poupadas , só ficaram os trocos grossos ; na colônia ruíram algumas paredes e todos os telhados foram danificados fora outros prejuízos.

Imagine-se agora a minha desolação! Justamente no momento de colher o fruto de um labor ingente; de julgar coroados de bom êxito todos os meus trabalhos  e esforços , vejo, num abrir e fechar de olhos , tudo anulado , tudo perdido. foi tão grande minha desolação que vendi a fazenda para meu cunhado Severino Meireles e voltei para Santa Rita.                               

Com este desfecho e a entrega feita mais tarde de suas propriedades aos credores , pelo Manoel Custódio, tio Manoel Ribeiro e seu genro Totó ; a venda que o Severino fez da fazenda que lá possuía , e a permuta da fazenda do Mano Jonas com Augusto Meireles , epilogou a verdadeira odisseia representada pela minha família naquele ingrato e longínquo rincão , onde ela, no perpassar de anos e anos de labor ingente , viu exaurir as suas energias físicas e morais ; dissiparem-se as suas ultimas esperanças... Não se falando dos insucessos dos outros parentes: tio Luiz Ribeiro, tio José Inácio, tio Joaquim, tio Pedro, tia Floriana, e membros das famílias Garcia e Rocha, cujos descendentes por lá ainda mourejam pobremente , na sempre e eterna esperança de dias melhores!!

Pode-se dizer, com muita propriedade , que Fartura foi o Waterloo da Família Ribeiro!...

                                                                                  

 

 

 

            

Retirado da autobiografia de Vitor Ribeiro filho de Francisco Deocleciano Ribeiro e Ana Candida   


Caçada de veado no Retiro Boqueirão de propriedade da família Palma , sita em Santa Rita.

Preliminarmente , vale assinalar que o local em Referencia , naquele tempo – há cinco décadas recuadas – era o que ainda é hoje;um grande reservatório de veados “catingueiros”, e, como os poderes públicos cogitam de proteger a caça , instituindo “Parques de Reservas”  lembro a escolha daquele rincão como um dos que merecem ser estudados , visto preencher os requisitos exigidos , não lhe faltando , nem mesmo a vastidão , pois ali poderão ser reunidos  num só bloco , para mais de 10 mil alqueires de terras , tiradas dos municípios de Santa Rita e São Simão , cuja aquisição ficará em conta por se tratar de terrenos de 2ª e 3ª categoria e onde não existem benfeitorias a se indenizar. Deixando aqui o meu lembrete, prossigo a narrativa.

Exauria 1890 , quando achando-me em férias escolares , na “Fazenda Passa Quatro” , chega da cidade , o Quincas , meu irmão, dando-nos a alvissareira nova de haver tratado com o nosso tio Pedro Ribeiro da Fonseca  uma caçada para  o dia seguinte, no Boqueirão. O motivo de nosso alvoroço e da nossa alegria provinha do fato e ter o tio Pedro , quando moço gozado da fama de grande caçador de anta, galheiro, e , principalmente , de onça , no sertão daquela zona, que tinha sido o meião encaixilhado pelas serras de Santa Rita , São Simão e Jatai, de um lado , e, de outro , pelo “Mogi-Guassu” , entre a embocadura do “Ribeirão Bebedouro” e o do “Jatai”, e , ainda mais, era havido também como caçador de raça, puro esportista , o qual se inflamava de grande     intusiasmo ao observar o instinto agudo , a subtileza do faro e a diligencia do cão , no modo de procurar e perseguir a caça, e  sobretudo a harmonia do toque.

Pedro Ribeiro era de estatura mediana , mas desempenado , possuindo um tórax de  atleta ; era homem de pouca conversa , porem muito exato em tudo quanto dizia. Dotado igualmente , de calma admirável , era, no entanto , um destemido, pois, neste particular, contavam dele, os contemporâneos , atos de coragem pouco vulgar...

Agora , o que o velho ainda conservava , e em todo sua plenitude , constituindo para ele verdadeiro orgulho , era o modo de incitar os cães , era o grito. Possuindo uma voz de soprano ligeiro : voz fina, nítida , sem tremores e de grande potencialidade , os seus gritos:  “lá... vai “, “lá...vai”, “iii...”iam longe...,de quebrada em quebrada , de vale em vale, a tudo despertando a  tudo alegrando , com verdadeiras clarinadas!

Logo após à chegada do Quincas , o Custodio, nosso cachorreiro, foi prevenido para que se apresentasse , afim de sairmos bem cedo. Na manhã seguinte , mal os galos começavam a amiudar os seus cantares , pusemo-nos a caminho e já nos achávamos no alto da serra do Maneco Palma , quando o dia dava os primeiros sinais de vida, espreguiçando-se muito ao longe...Ao iniciar a descida . demos uns toque de buzina , sinal convencionado , ao qual o velho prontamente responde com  toque mais altos , porem harmoniosos , tirados da sua buzina , que era de chifres inteiriços , ao passo que as nossas eram metálicas.

Ao chegarmos ao sopé da serra , onde nossa estrada cruzava com a que ia da fazenda do tio ao Boqueirão , lá estava o velho , acompanhado de um filho , de mais dois companheiros e da matilha. Após os cumprimentos e a troca de gracejos, com os quais o tio procurava saber se havíamos passado sebo nas canelas dos nossos cães, prosseguimos a viagem ate que , e ainda em boa hora matinal , chegávamos ao local escolhido para a solta dos cães , que eram ao todo 24: 14 nossos e 10 do velho , ficando desde logo estabelecido que só a este cabia dirigir toda a caçada.

Em consonância com este critério , indicou-nos o mestre o alto de uma colina , onde deveríamos nos postar e não sair antes que ele lá chegasse. Do local em apreço – explicou-nos ele – vocês poderão acompanhar todo o desenvolvimento da caçada e ouvir todos os toques , tomem eles as direções que tomarem. Ao mesmo tempo que nos dirigíamos ao ponto indicado , os dois eméritos caçadores, Pedro Ribeiro e Custódio , desatrelavam os cães num rocio à margem do riacho. A matilha , que estava composta quase que só de veteranos , penetrou pela mata silenciosamente. Porem, pouco tempo depois , a cadela “Gazeta” , pertencente ao Velho , dava sinais de ter encontrado uma trilha , a cujos latidos  o dono correspondeu logo, com gritos apropriados. Mas, não demorou muito para que o nosso baliza , o “Cupido” , também ensaiasse com certo vigor , denotando que o rastro que havia encontrado era fresco. Dai em diante , instintivamente , a matilha foi-se separando em dois núcleos distintos: um guiado pelo “Cupido” e outro pela “Gazeta” e pelas direções que tomavam , não restava duvidas de que se tratava de dois veados. E, a  estimular a um e a outro ali estavam os dois campeões do grito; Pedro Ribeiro e Custódio , com sua voz de tenor , volumosa e forte.

Do nosso posto de observação, assistíamos, então , a uma cena , para nos caçadores, simplesmente empolgante; presenciávamos um verdadeiro torneio , não de oratória propriamente, mas de gritos. Aquela hora , já toda cachorrada trabalhava alegre e afoitamente , a cujos ”ensaios”, ora o velho , ora o Custódio , correspondiam à altura , com vigor e entusiasmo , numa torcida frenética para que ao seu favorito coubesse a palma da vitória, no levante da caça.

E, pegando fogo , num crescendo de emulação e ruidosa alegria , iam as coisas , quando a “Certeza” , passando a finta no “Cupido” , surpreende o veado e, desmandibulando-se toda , grita, geme fragorosamente , produzindo grande assuada! A esse tempo , ouve-se o estampido da salva e as clarinadas  e repetidos ecos dos gritos do velho tio Pedro , em cujas manifestações de alegria ele punha toda a emotividade de sua alma de caçador , e, sem interromper a corrente de ecos da salva do Custódio , e os reboos de seu possante gritos tintinabulam também pelo Boqueirão abaixo!!

Nesse momento , por toda parte , ouve-se ganidos de cães, que, em carreiras atropeladas , procuram juntar-se à  “Certeza” , que já em toque ritmado , ganha o espigão.

A corrida, à  qual não faltou um só cão , desenvolveu-se animada e rumorosa pelo dorso afora da colina.

De onde estávamos , vimos, então, o Custódio tomar de salto o “Picaço” e,  de trelas atadas à garupa , chapéu caído na nuca , preso pela barbela , dar de rédeas, esporeando ao mesmo tempo o matungo, que saiu rabejando ,e a todo galope, por desvio , afim de não perder o contacto com a cachorrada. Nós, de cabelos arrepiados, com os assentos erguidos das selas e os corpos apoiados somente nas pontas dos pés , nos estribos, e, ainda sob a comoção produzida pela “Batida”  da “Certeza” e pelos gritos de “Levante” , expelidos pelos dois titans , mestres em cinegética , ouvimos maravilhados a corrida  que já ia longe , quando nos surge  pela frente o velho tio Pedro, trazendo no semblante o sorriso radioso da vitória. “ Pois- gritava ele- como foi, Quincas , que o “Cupido” , e o seu baliza , deixou a cadela lhe passar à frente? “.

Encerrando á pressa o dialogo , endireitamo-nos nas selas, fazendo menção de partir, a cujo gesto o velho obtemperou:-    “ Não , fiquemos por aqui mesmo; esse veado volta, já lhe conheço a carreira. Ouçamos o toque e veremos”.

A corrida, que a começo era volumosa e hilariante,  à medida que se afastava do ponto de partida , ia, pouco a pouco , diminuindo a tonalidade , sumindo-se ao longe, ate  o ponto de nada mais se ouvir.

Nessa hora, o tio repetia: “ Não se impaciente que o cabrito volta”. De fato: pouco depois, começamos a ouvir , muito ao longe, o latido de um cão,  logo após o de outro e mais outro, e num crescendo continuo , à medida que se aproximava , o toque ia se clareando , alternando, avolumando-se e, já agora, ao passar ao sopé da colina onde nos achávamos  , já era uma avalanche , assemelhando-se a uma torrente escachoante !

Nesse interim, não éramos nós  apenas que nos sentíamos emocionados : era a própria natureza , pois até o mato parecia tremer, e os nossos animais , que mal contidos pelas rédeas , levantavam e abaixavam as cabeças , num ímpeto de partir. Foi nesse momento supremo para o caçador que o tio Pedro , inquieto, movendo-se nervosamente de um lado para o outro, , com o fisionomia visivelmente alterada, estuante de entusiasmo e de alegria, proferiu uma serie de gritos de estímulos e de aplauso à matilha , a cujos gritos o Custódio , como em desafio , secundou na altura, com outros de igual emotividade e beleza, que reboaram por todos os recantos do Boqueirão!   

Enquanto a corrida, sempre estrepitosa e borbulhante rolava pelas encostas abaixo,  lembremo-nos de que ao páreo concorriam 24 competidores ! – o velho dava ordens ao filho e ao Custódio , para que acompanhasse a corrida, e, dirigindo-se a nós – Quincas, Zeca e eu- nos convidava a acompanha-lo ao alto do outeiro , que dava vista para o vale do “Ribeirão das Pombas” , donde  poderíamos ver o veado e os cães atravessarem a várzea que marginava aquele aquele. Partindo a trote acelerado, , pouco depois chegávamos ao local indicado , donde, desde logo , começávamos a ouvir , repontando muito ao longe , a assuada matilha.

Advertia- nos então o tio: “Tomem cuidado ! Olhem para baixo , que o cabrito espirra já !!!...” E não tardou ! Aos pinchos , de pescoço esticado , orelhas voltadas para a frente e a cauda revirada sobre as ancas , salta na clareira  o “catingueiro” , que , ágil , avançando até ao centro dessa, estaca , ao ver na frente reses que passeiam ,e,  lesto  volta encimando os próprios rastros e, antes de atingir a orla da catinga , donde saíra ziguezagueia rumando para o lado do ribeirão , passando assim a finta  aos seus perseguidores ... Nós , nesse interim , fazendo menção de partir , fomos interceptados pelo velho, que nos disse: “Não, esperemos um pouco, vamos apreciar o trabalho de nossos famanazes “...

A essa hora ,a acorrida já se abeirava da várzea , tocando os cães ainda com vivacidade e fragor. Os primeiros a chegar , ao local  em referencia , eram nossos, “ Açucena” e “Desempenho” , cuja aparição deu ensejo a que eu e Zeca , num ato quase de irreverencia , bradássemos: “ Conheceu tio Pedro ? Aqueles levaram sebos nas canelas !” Ato continuo, o grosso da matilha atravessava ,  de um lado para o outro , o descampado espalhando-se pelo serrado , decepcionados . pois haviam perdido a pista... Movimentando-nos então , com intuito de auxiliar os cães , interveio novamente o velho: “Não, esperemos mais um pouco, vamos ver qual dos nossos cães tem melhor focinho “.

Na cauda da matilha chegavam os veteranos – cinco ou seis – cães já madurões , porem firmes , os quais, entrando pela liça, de nariz no chão , catando rastros aqui e ali , avançavam ate o meio dessa , mas, sentindo-lhes  faltarem a pista , entreparam , e, lestos, voluteiam , uns a direita e outros à esquerda , e, antes de fechar o cerco , já o “Alegre” pegava novamente o rastro do veado.

Foi quando o Quincas, num assomo de entusiasmo, gritou: Aí... “Alegre” ! lávai...lávai !!!

Nesse instante, com as vestes esfarrapadas pelos arranha gatos e a todo galope , chega o Custodio, que, ouvindo os “ensaios” do “Alegre” e compreendendo os gritos do Quincas, repicou a buzina e gritou também “Pratrás ! Pratrás” E era de se ver a obediência e a presteza com que toda cachorrada atendia aos toques de reunir do cachorreiro, cuja matilha, momentos depois,  toda agrupada, Já trabalhava diligentemente no encalço do cabrito. Mas , apesar da atividade dos cães , o desamoite não foi fácil , porquanto, constatando se desde logo que o veado havia caído nágua e rodado, tivemos de auxilia-los.

Nesse trabalho fomos todos mobilizados: enquanto uns atravessavam e margeavam o ribeirão á esquerda, outros margeavam á direita , sendo o meu trabalho, de meninote que era então, aproveitado em puxar as montarias dos companheiros. Já haviam palmilhados duas ou três voltas de ribeirão , na pesquisa de pista, quando, com surpresa para todos, caçadores e cães , salta do meio da corrente, de uma minúscula ilha , o veado, cujo imprevisto salto , além do susto , produziu entre todos grande confusão e hilaridade, soando por todo lado gritos estrepitosos e salvas, que ecoavam pelos vales e colinas, procurando todos, em correria atropelada , tomar seus animais , enquanto a corrida tomava direção do espigão. Nessa ocasião, sentenciava o velho tio:- “ Esse não vai longe, berra logo; veado quando cai nágua e deita a margem é sinal de que esta  frouxo”. Realmente , num tropel feio e veloz , a corrida, antes de galgar o cimo da colina, descrevendo pequena flexão , rumou para trás, porém, antes do cabrito atingir de novo o barranco do ribeirão , foi alcançando e envolvido pr quase toda a matilha , que já o trazia á vista, e , tal foi a disputa , que não se ficou sabendo qual teria sido o primeiro cão a segura-lo. Nós todos, que nos achávamos nas imediações, acompanhando “de vista”, entusiasmados e embevecidos , o final movimentado e rocambolesco da peleja , nos acercamos precipitadamente  da presa, procurando cada qual , com salvas, gritos e toque de buzinas, ser o primeiro a festejar a vitória, cujas expansões de alegria duraram algum tempo , enchendo o ar e o ambiente de ruídos fragorosos e de fumaças. Pouco depois ali mesmo, enquanto toda a matilha , deitada e resfolegante , guardava com olhares ávidos o veado, nós comíamos a virado e comentávamos certos lances engraçados da caçada.

Dentro os comentários, e do qual nunca me esqueci ressalta este dito pelo Quincas: “ Quando ouço o tio Pedro gritar, tenho vontade de virar cão , entrar no mato e sair tocando”

Depois de um descanso relativo , como tínhamos de nos separar , foi alvitrado e executado logo, ali, que se tirasse o couro do veado e distribuísse a carne  aos cães.

 Logo depois punhamo nos  a caminho. A tardinha , no mesmo lugar onde nos havíamo-nos encontrado pela manhã , despedimo-nos, beijando a mão do velho Pedro Ribeiro, duas vêzes; como sobrinhos e como discípulos da arte venatória.

Ao ascendera serra, passo a passo, , que é hoje a mesma: comprida, sinuosa e íngreme, tendo a direita um horizonte vastíssimo , presenciamos um crepúsculo belíssimo, pois o astro rei , ao se esconder por traz da cordilheira de Descalvado e São Carlos deixava por toda amplidão uma poeira , tênue, de ouro a qual foi se diluindo lentamente , enquanto a noite descerrava o seu véu...

Evocando aqui, hoje, essa caçada cujos episódios trago bem nítidos na retina, apesar dos cinquenta anos já decorridos , ouço,  igualmente reboar nos ouvidos os ecos longínquos dos gritos do velho e saudoso tio Pedro !!!                                                           

 

 

 Retirado auto biografia d Vitor Ribeiro, filho de Francisco Deocleciano e Ana Candida  

                                         O cachorro “Cupido”  

Este animal tem sua historia.

Trata-se de um cão de estimação que pertenceu ao apaixonado e exímio caçador de veados Quincas Ribeiro.

Os pais do referido animal haviam sido doados a este pelo seu velho tio Pedro Ribeiro  da Fonseca , cuja raça de caninos vinha sendo conservada com carinho e, de longa data, pelos seus ancestrais , constituindo, assim , já um bem de família.

“Cupido” era pois, um animal de raça, de cuidadoso “pedigree”! Nascera na fazenda “Passa Quatro”, sita em Santa Rita ; com idade de um ano fora levado ao mato pela primeira vez , demonstrando já na segunda caçada em que tomara parte predicados excepcionais de veadeiro de fina estirpe. Na terceira caçada , causando surpresa a todos os caçadores presentes, levantou e desmoitou um “catingueiro” duas vezes seguidas , segurando-o logo depois.

Com essa façanha , iniciou ele sua ascensão vitoriosa ao mundo da cinegética. Daí em diante tornou-se afigura principal, não só da matilha do Quincas , como também das dos demais caçadores do município. Pouco mais tarde , a sua fama transpôs as raias de Santa Rita , estendendo-se aos municípios de Tambaú , Santa Rosa e São Simão, onde seu dono, mantendo relações com todos os caçadores , empreendia frequente e longas caçadas.

Como veadeiro nacional, tinha, bem acentuado, todos os característicos da raça: era alto, comprido e esbelto, de cabeça e focinho alongados , conservando as orelhas sempre e posição vigilante; seu pelo era preto , com tonalidades amarela pela barriga e pelas patas; era dotado de latido grosso , volumoso e retumbante , fazendo-se ouvir muito ao longe. Posto que se expressasse com sobriedade , quando em procura da caça, era no entanto exuberante ao surpreende-las e nos, toques, aí então latia abundantemente e com singular alegria. Seus levantes, principalmente, eram vibrantes , de sacudir e emocionar, até mesmo, os bisonhos na arte  venatória! Quanto ao instinto  e ao  faro, possuía-os dos mais atilados , tendo a intuição perfeita do verdadeiro caçador. Do mesmo modo, cão algum o suplantou na resistência física  e sobretudo na velocidade.

Caçava dias a fio sem demonstrar cansaço , sendo impar na carreira.

Durante sua mocidade- dos 2 aos 8 anos- muito poucas  vezes encontrou parceiro que tomasse a dianteira e, nos dias frescos , poucos veados dos que perseguia , tiveram ensejo de se amoitar mais de duas vezes; era frequente segura-los no segundo desamoite.

Sendo um animal dócil para as pessoas , era no entanto um destemido para com os outros cães  , enfrentando-os a todos com denodada bravura, mormente quando se metiam a querer requestar as suas favoritas , caso em que era violento e severo em pondo em “nocaute”  o atrevido logo nos primeiros “rounds”...

Agora, o predicado que mais o distinguiu como cão veadeiro , constituindo um dos predicados mais apreciados na raça, e a ufania de seu dono , era o desprezo que votava por todas as demais caças. Só corria veado, jamais perseguia uma cacinha. Neste  particular , tal era a confiança que seu dono nele depositava , que, certa vez, lhe pôs a vida a prêmio.

O fato deu-se nas margens do rio Mogi-Guassú, , entre as fazendas Còrrego Rico e Paulicéia.

Achavam-se ali abarracados , em excursão venatória os caçadores e velhos amigos Quincas Ribeiro , Adolfo Melchert, e Capitão Marciliano da Costa, com suas matilhas , quando, por uma manhã, ao iniciar a caçada , a cachorrada, logo ao penetrar pela mata , esbarrou com uma grande vara de queixadas. Do choque dessa com as matilhas , como era de esperar , resultou luta violenta , com agressões reciprocas , confundindo-se , no meio de grande assuada, ganido doloridos de cães com rilhar e dentes dos bichos , partindo em seguida , com o estoiro da porcada , corrida de cães por todos os lados .

Impressionados com o imprevisto e receiando-se  pela sorte dos cães , trataram logo, todos os caçadores , com toque de buzinas e salvas , de afastar os cães do local onde se dera o desagradável encontro, cujo trabalho não foi dos mais fáceis.

Todavia , depois de umas duas horas , já em ponto diferente, o grosso das matilhas trabalhava em trilhas de veado , quando chega o capitão Marciliano , o último dos companheiros  que havia ficado para trás , no trabalho de afastar os cães do local perigoso , o qual, dirigindo-se ao Quicas , lhe diz: “Então, Quincas , como foi que seu bamba , o “Cupido” , desta vez  lhe deixou mal”?

“Como assim? “ retruca-lhe o amigo – “É que, ainda há pouco , o vi todo ensanguentado e golpeado pelos porcos”. A essa afirmativa, o Quincas objeta , prontamente , e com firmeza; “Presumo que meu amigo se tenha enganado , mas se o que acaba de dizer se confirmar , apesar da estima que tenho por este animal , dar-lhe -ei um tiro na cabeça.

O Quicas assim se expressava visivelmente desconcertado , portanto, ainda na véspera , havia feito aos companheiros referencias gabosas às qualidades do seu cão favorito. Ao encerrar esse dialogo , a atenção  do Quincas era no entanto , despertada pelo toque de cães que repontavam muito ao longe.

Apurando melhor o ouvido, volta-se para seu interlocutor e, com ar de ironia , lhe diz: “Lá vem o ferido! ouçamos  um pouco!”. Efetivamente , momentos depois , já se ouvia claramente o toque ,que, gradativamente , se avolumava e se aproximava do rio , onde os caçadores se achavam em canoas , vindo na vanguarda da corrida , e bem destacado , o “Cupido”.

Foi quando o Quincas , dirigindo-se aos companheiros , lhes recomendava que tomassem posição  , porquanto o cabrito estava a espirrar e , com efeito, logo após caia nagua , a  todo peso, o Cupido engarupado num bonito “mateiro“.

Abatido o veado , o Quincas , radiante de entusiasmo  e alegria , acerca-se, e abraça demoradamente o cão seu querido e valente companheiro de venatura, e , voltando se para o velho capitão; aponta -lhe o animal  e pergunta-lhe “Aonde estão os ferimentos capitão?”.

Horas depois , já no acampamento  , passando em revista os cães que haviam sido feridos pelas queixadas , foi encontrado, entre eles, um pertencente ao velho Marciliano, o qual se parecia com o cão de seu amigo , provindo dai o equivoco e consequente desapontamento do velho caçador.

 

“Cupido”, na sua fecunda existência , deixou um rastro luminoso e difícil de ser esquecido pelo seu dono. A resistência às longas jornadas , a tenacidade na perseguição da caça, a lealdade e dedicação ao seu dono , foram os seus traços marcantes. Mas, como todos os seres , sofreu também as consequências inexoráveis do tempo. Ficou velho.

Do esforço e do trabalho despendidos, chegou-lhe mais cedo a decrepitude.

Aos 8 anos, em escala decrescente , nas corridas , foi passando para a retaguarda da matilha , mas, mesmo ali, tinha sua função a desempenhar. E quantas , quantas vezes! Sendo o ultimo a chegar , nas perdidas, era no entanto o primeiro a descobrir de novo a pista...

Com o focinho no chão , catando rastos aqui acola . atravessava sem vacilar as clareiras e as várzeas , indicando aos outros cães a verdadeira vereda. Aos 9 anos , teve seu crepúsculo , sua integral decadência. Finalmente , faltando-lhe por completo as forças , seu dono foi constrangido a impedi-lo de ir a caça , imperativo com o qual custou a se conformar.

No começo, ao ver a matilha partir , mostrava-se  irrequieto , pesaroso , pondo-se a ganir tristemente...

Mas, com o correr do tempo , teve que se submeter à lei implacável da velhice e, resignado , recolheu-se ao seu canto , onde, entretanto , recebia assistência e o carinho de todos da casa , de cuja família já era considerado parte integrante e donde só saia raras vezes estimulado e acariciado pelo seu dono, afim de ver os veados batidos nas suas caçadas, e que eram trazidos para casa.

Então, arrastando-se penosamente, bamboleante e quase exangue: de olhos empanados pela senilidade , num misto de tristeza e de alegria , era de se ver , nessa hora  , com que emoção ele se aproximava da caça e, depois de mira-la longamente , de cheira-la , da cauda ao focinho , enternecido , pesaroso, meneando a cabeça e erguendo -a penosamente , expelia ganidos rouquenhos , agoniados e estertorantes , que saiam do fundo das entranhas , a todos comovendo e a todos entristecendo profundamente!

Eram, sem duvida alguma , as reminiscências do passado que que se foi, eram as saudades acordadas da sua mocidade ; era finalmente o pressentimento do fim, da ultima pagina da vida! Eram cenas essas confrangedoras , que cortavam o coração , e das quais guardo , até hoje recordações indeléveis...

Um dia, após um daqueles comoventes espetáculos , deixou de existir. A casa , impelida por um sentimento espontâneo , entrou em recolhimento , pois via-se a tristeza e o pesar estampados em todos os semblantes! A impressão era de que se havia perdido um grande e leal amigo !

Ao lhe darem sepultura , condigna , seu dono recomendou que lhe reservasse do mesmo , uma lembrança , sendo então aviltado que se lhe deixasse a cabeça, na qual, depois de despojado do couro e dos músculos , e reduzida somente a parte óssea lhe gravaram esta inscrição: “ Cupido , campeão da arte cinegética!! Honra e gloria da raça veadeira”.

Essa caveira, como preciosa relíquia , jazeu por longos anos dependurada nos chifres  do ultimo “mateiro” que ele havia apresado , cujo troféu servia de cabide no portal da entrada do vetusto casarão da “Fazenda Passa Quatro”, donde fora retirado , anos depois , pelo próprio Quincas , ao transferir sua residência para Santa Rosa e, segundo informações seguras , a aludida relíquia acha-se ainda em poder de pessoa da família.

Resumindo: “ Cupido “ desapareceu cercado por uma auréola da valentia e de admiração. Sua vida foi rica em façanhas e episódios interessantes.

E aqui finda a historia breve, singela e muito simples, mesmo, porém autentica e edificante , do mais leal e reconhecido amigo do homem e que tanto prazer lhe proporciona!!

                                                                      Santos, 20 -10 – 1941

 Retirado da auto biografia de Vitor Ribeiro, filho de Francisco Ribeiro e Ana Candida  

Caçada de Anta no rio das Cinzas , foz do Laranjeirinha norte do Paraná 

                                                                                              

Em que circunstância   aprendia a cozinhar

Como a reminiscência é a ultima faceirice do velho , permito-me iniciar esta narrativa venatória , relembrando o principal motivo que me ensejou a incursão , em pleno coração de nossas florestas virgens , em rincão ainda habitado por indígenas , que era então o local a que acima me refiro , pois é preciso não esquecer que isso se passou em 1906.

Em principio de maio desse ano , fugindo ao ambiente pesado e desfavorável que se formou para mim em Santa Rita , motivado pela dissolução de um certo compromisso , parti para Fartura , sem outro objetivo  senão o de dar tempo a que o ocorrido caísse no esquecimento. 

Procurando por isso em emoções mais fortes espairecer , não digo as máguas , mas a displicência que envolvia meu  espirito , foi que, com meu primo Oliveiros  Ribeiro , que então ali residia , planejamos e empreendemos a caçada a que, com muita saudade, me reporto.

Faltando a mim e a ele  a pratica e certos elementos indispensáveis para a composição da caravana , como fossem ; cães de caça, barracas, animais de carga, utensílios de cozinha, cozinheiro, etc ; convidamos para nossos companheiros a Frederico Butter e   José Neto , os quais se encarregaram desta parte , ficando eu e Oliveiros responsáveis pelos gastos em dinheiro , com viveres e salario do tropeiro , cozinheiro e  canoeiros.

Antes, porém, de relatar a caçada a que aludimos vamos tentar descrever  o que o que seja uma caçada de anta, em rio e em pleno sertão. Pois, não se deve confundir essas caçadas com a de veado, em terreno cultivado , onde  o caçador acompanhando a cavalo a matilha , nada perde da caçada, desde os primeiros ensaios dos cães, à corridas e à pega da caça. A caçada de anta em rio e em sertão é muito diferente. Não é demais acentuar que, quando se fala em caçada de anta, deve se compreender que se trata de caçada completa, porquanto, onde existe a anta, quase sempre abundam todas as demais caças , notadamente o veado, e, sendo em rio, entende-se também a pescaria e a passarinhada. Outro sim, não devemos esquecer que, em geral , todo cachorro de raça veadeiro , de primeira vista , corre também  anta, por isso para essa caçada não se exigem cães muito amestrados. Além de que, tratando-se de um animal grande e que corre de ordinário , em carreiros batidos , dificilmente o cão a perde. E só os caçadores experientes sabem que, a essas incursões pelo sertão , não se deve levar os melhores cães , por ser frequente o desaparecimento desses ; uns por extravios , morrendo de inanição , e outros vitimados por onça, pois esta, quando aprende a pegar cães, fazem estrago numa matilha.

Como é sabido, de toda a nossa fauna , é anta o animal mais perseguido , mormente pelos nossos sertanejos que muito lhe apreciam o couro e a carne e por ser relativamente fácil a sua caçada. Dependendo do êxito de todo o empreendimento da boa ordem , essas caçadas costumam obedecer a este programa: o tempo que medeia entre o raiar do dia a as 10 e 11 horas  é empregado na  caçada de anta e veado. A essa hora, os caçadores procuram a abarracamento para o almoço , após o que cuidam de tirar e esticar os couros e retalhar e salgar as carnes dos animais abatidos , estendendo-os em varais para secar. Os cães fartam-se geralmente com as vísceras e as carnes aderente aos ossos. Quando o período da manhã é infrutífero para os caçadores, faz-se uma segunda tentativa , depois de algum descanso. À tarde, geralmente, os caçadores se espalham: uns vão para os barreiros à procura das jacutingas e das caças miúdas que afluem  a esses lugares; outros procuram os macucos , urús, e nambus-guassú , pássaros que acodem pelo pio, e os outros se entregam à pescaria, armando espinhól , redes de barranco  e varas de espera ou, com longas linhas , sondando os fundos dos poços à procura de Surubis, e dos Pintados, pois, da habilidade  e sorte nessas excursões , dependem a fartura e a variedade do rancho.

É oportuno recordar também que o amago da mata virgem e os álveos dos rios são verdadeiras caixas de ressonâncias; a acústica ali tem um grande potencial.

O estampido do tiro , o grito do caçador , o ladrar do cão, e a menor pancada na canoa, ali se alteiam , se avolumam e tomam diversas modulações; retumbam à distancia com intensidade e vigor. Agora, nessas caçadas , o momento supremo, épico, para o caçador, é quando a anta , surpreendida distante do rio , é alcançada no percurso por uma matilha numerosa e afoita , que a veja pegando pelos garrões.

Nesse momento, a emoção, o entusiasmo, a exaltação da cachorrada , é tal, tão fragorosa , que contaminam ate mesmo a própria natureza! O ambiente e a alma do caçador enchem-se também de sensações novas , indescritíveis e intensas! Tais espetáculos só são comparáveis ás “torcidas” em competições futebolísticas , com agressões reciprocas de jogadores e do próprio juiz...

Confesso te sido esse para mim o espetáculo mais atraente, mais emotivo e agradável a que jamais assisti.

Não menos empolgante é o tombo , a todo peso do animal na agua , quando, nesse gesto instintivo de defesa, ela leva grudada aos garrões alguns cães e, após esses, caem no mesmo lugar outros e mais outros , enfim a matilha toda...

A anta, ao cair , desaparece num longo mergulho , ao passo que os cães , decepcionados e latindo raivosamente em forma de leque , se espalham por todo rio à procura da bicha e, quando esta emerge no meio da correnteza , é de se ver a sofreguidão com que toda a matilha , em nado veloz, para ela converge, mas, nesse interim, a caça, pressentindo o inimigo se aproximar , engana-o num novo mergulho. A esse tempo, os caçadores , que, em canoas, se encontram a espera em diferentes e afastadas voltas do rio e que, tomando por ponto de referencia a assuada hilariante dos cães , para lá aproam suas frágeis embarcações e,  de cabelos arrepiados , nervos retesados em fortes e vigorosas remadas  , ali também chegam  , pondo a alma pela boca em disputa do primeiro lugar... Com aproximação desses, os cães com ares vitoriosos , redobram suas expressões de animação e alegria. Nessa hora, o caçador veterano, , que não tira os olhos da barranca  oposta do rio , descobre a cabeça da bicha , num gesto de trans-pô-la e  e galgar novamente a mata. Mas, nesse instante  , veloz, sem perda de tempo , lhe desfere o primeiro tiro , em cujo gesto é secundado pelos demais companheiros , recebendo, então , a caça uma saraivada, quase sempre mortal , de chumbo “Paula Sousa”. Verificada a morte  , o que é fácil, pelas manchas de sangue e bolhas de ar que veem a tona dágua , expelidas pelo animal nos estertores da morte , os caçadores se postam a algumas dezenas de metros abaixo do ponto a que se deu o tiroteio , e esperam que a caça flutue , o que se da alguns minutos depois , ou tão logo ela encha o ventre dágua.

Apanhada a presa, é ela  arrastada a uma das margens da corrente, e ai, já reunidos todos os caçadores , em regozijo da vitória , e, encerrando a peleja , dão gritos retumbantes , salvas e repicam as buzinas , aumentando com essas expansões também o entusiasmo dos cães,  que já então deliram! E é de se notar o ar de importância de cada cão que, ao se aproximar da vitima , como quem esta convencido que contribuiu para o êxito da luta , procura tirar sua desforra , mordendo-a e sacudindo-a nervosamente...Após o que, deitando-se de lado com a língua de fora  , todo lampeiro e resfolegante. Verificada, então, a presença de todos os cães, é a caça colocada numa das canoas , rumando todos em seguida para o acampamento , onde o cozinheiro os espera com o suculento almoço , que é acompanhado de excelente caninha, fazendo-se de permeio o comentário dos lances mais interessantes da jornada.

                                       ***

Ora, muito bem.

Com esta despretensiosa explanação , fica o leitor neófito  em venaturas mais à vontade para acompanhar-me na que passo a descrever.

Volvamos, por isso, a Fartura, onde teve o inicio a caçada em referencia.

Dias depois de havermos cometidos aos nossos conhecidos, Frederico Butter e José Neto , a tarefa de organizar uma caçada nos sertões do Parana, fomos avisados por eles de que tudo se achava pronto , podendo-se dar começo à viagem, acrescentavam os informantes que a partida da caravana se daria na segunda feira próxima , servindo de  ponto de reunião dos caravaneiros a fazenda Santána , de propriedade  do meu cunhado Manuel Custódio , e onde eu e o Oliveiros assistíamos.

Preveniam-nos também de que, dali, só sairíamos eu e o Oliveiros , e eles: Frederico e José Neto e mais o cozinheiro Paulo e o tropeiro José Fraga  , o qual seria incumbido de tomar conta de dois cargueiros que levávamos e dos animais de sela , no ponto em que houvéssemos de tomar as canoas. Quanto a essas e aos pilotos , que deviam integrar a comitiva , seriam contratados na boca do sertão , que era , então, pouco além da cidade de Jacarezinho , e entre agregados da “fazenda dos Alcântara”  , na parte que estas confinavam com  o ribeirão “Jacarezinho” , quasi na foz do “Cinzas”. Finalmente , tudo previsto e nada faltando , numa manhã neblinosa  de maio , que exhauria , partimos de fartura por estradas estreitas e tortuosas – para não dizer picadões -passando por Carlopolis e Ribeirão Claro , que, naquela era prisca, não passavam de apagados esboços das cidades que são hoje, rumo a Jacarezinho, que, também , não era mais do que um burgo pobre,  onde pernoitamos.

No dia seguinte, auxiliado pelo amigo velho da família, Cecilio Rocha , que ali já se achava residindo, nos orientamos melhor sobre a excursão pelas selvas, tendo conseguido mesmo, por indicações desse amigo , arranjar emprestado mais alguns cães anteiros.

Prosseguindo a viagem, pela tarde, fomos pousar na fazenda do sr. Bibino Alcantara , o qual nos acolheu coma fidalguia peculiar a todo bom mineiro.

Ocorre-me inserir aqui o episodio que guardo na memoria: Era alta a noite quando eu e o Oliveiros, dormindo sono profundo, devido ao cansaço da viagem, fomos despertados com um jorro dágua que caia sobre os nossos leitos. Só então percebemos que desabava forte tempestade, tendo arrebatada pela ventania uma parte da cobertura da casa, que era de cavacos de madeira...  Com as vestes e as camas algum tanto molhadas e ainda sob a impressão do susto , comentávamos o ocorrido , quando nos apareceu o bom velho Bibino, de candeia de azeite em punho, inquirindo-nos como nos  achávamos , porquanto ele e a senhora haviam sido também vitimas do mesmo acidente. Lamentando o sucedido , mas, sempre de bom humor , o nosso amigo nos passou para outro comodo da casa, onde , trocamos também de roupas , pudemos dormir, mais comodamente , o resto da noite . Entretanto , o susto e o aguaceiro que caíra a noite não serviram de  óbice a que nos puséssemos , cedo, a caminho, tal era nosso anseio de entrar em contacto com a natureza bruta. De sorte que, entre 9 ou 10 horas da manhã, por vereda sinuosa e só acessível a cargueiro , transpúnhamos o “Ribeirão Jacarezinho” , apeando  na casa do caboclo , pioneiro, José da Silva, cuja residência estava situada no limiar , mesmo na boca do sertão. Dali para diante , não existia mais gente batizada , repetia , vangloriando-se , o caboclo...

Agasalhados pelo mestiço , como se fossemos velho camaradas , o qual, adivinhando de pronto o que pretendia-mos  , foi logo , e obsequiosamente , se encarregando de completar nossa caravana , arranjando-nos as coisas e os elementos de que ainda precisávamos. E assim foi que, naquela mesma tarde , estávamos com tudo pronto.

Contávamos  então  com quatro canoas e mais quatro companheiros , sendo que dois desses eram índios mansos ; elementos que- diziam-nos – pela pratica  que tinham dos costumes do bugre , nos poderiam precaver contra uma cilada deste.  Nada faltando , a partida fora marcada para a manhã  seguinte. Porem , lembremo-nos de que o homem põe e Deus  dispõe , diz o ditado ...

A amanhã em apreço , amanheceu chovendo e chovendo continuou por dois dias a fio , transtornando assim o nosso programa. Melhorando o tempo , no terceiro dia , foi resolvido que parte da comitiva partisse nessa tarde para a foz do “Cinzas” , onde aguardariam os remanescentes , na manhã seguinte , para juntos prosseguirem até a foz do “Laranjeirinhas”, ponto terminal da incursão e que seria a sede do acampamento.

Embora sendo eu e o Oliveiros dos destacados para seguir na manhã imediata , fomos, como chefes do rancho, assistir a partida das primeiras canoas. Ao chegarmos as margens do ribeirão, tivemos, no entanto, uma surpresa, ao ve-lo transbordante , sinal de que as chuvas haviam sido mais abundantes  do que nos pareceram. Achando a corrente impetuosíssima , adverti aos que tinham de embarcar da temeridade  e dos riscos que iam correr , mas, não se convencendo e havendo confiança nos pilotos , lá se foram e, mais felizes do que nós , que partíamos no dia seguinte.

Assisti, então impressionado, à partida , uma a uma, daquela esguias e frágeis embarcações , que saiam superlotadas! Não digo que as mesmas deslizavam , porquanto a minha impressão era que voavam impelidas pela velocidade da corrente! Da riba , nas pontas dos pés e de cabeça erguida , até onde a vista alcançava  rio abaixo , acompanhei apreensivo aquele destemidos e valentes sertanejos, cujas camisas enfunadas pela brisa panejavam fortemente nas costas.

Naquela noite custei conciliar o sono , pensando na sorte daquela gente e na nossa partida na manhã seguinte, consolando-me , um pouco, a esperança na vazante do rio durante a noite , porem enganei-me , pois, ao alvorecer, ainda extravasava ... Não obstante , procurando não denuncias os meus receios , já que os companheiros se aprestavam  para a partida , tratei de levar também para dentro da embarcação o que era meu: capa, coxonilhos, mantas, e um cobertor, objetos esses que me serviriam de cama ; armas de fogo e diversos vidros de medicamentos , pois , na ocasião , vivia em constante uso de remédios , procurando combater uma dispepsia hepática , que já e tornava neurastênico. Éramos quatro a embarcar , inclusive o velho Silva , que, desde a véspera , se oferecera como piloto garantindo-nos levar a porto segura sem perigo algum.

Por precaução e apesar de não saber nadar , ao sentar-me no meio da canoas , me despojei das botas , paletó e calças , ficando em trajes simplíssimos, não obstante o frio que fazia. A canoa partiu com uns 10 centímetros apenas de borda fora dágua. A minha impressão era que navegávamos  a 200 milhas horarias, tal a impetuosidade da correnteza. Chumbado a embarcação , procurava não mover sequer a cabeça, vendo nos flancos somente  o que os olhos alcançavam, , movendo-se dentro das orbitas...

Ao transpor a primeira corredeira , a canoa tomou um pouco de dágua, não havendo, no entanto, outra consequência a não ser ligeiro susto. Na segunda corredeira , não tivemos a mesma sorte: além dos borbotões dágua serem mais altos, a canoa resvalou por sobre uma pedra, tendo num movimento , oscilatório recebido quantidade dágua suficiente para leva-la ao fundo. Como era natural, houve alarme, e grande susto ao vermos a morte diante dos olhos! Felizmente , o caboclo velho, do leme, não perdera a calma e, num gesto instintivo, aproou a canoa para o barranco , compelindo-a  com fortes remadas , de sorte que, ao submergir de todo , já se achava perto da terra , e foi quando nós todos, lívidos  e apavorados , agarrando-nos em galhos de arvores  e ramos, conseguimos galgar o barranco.

Só depois de nos refazer do abalo produzido pelo susto, e de recuperar a calma , foi que o companheiro que vinha conosco , moço, bom nadador e mergulhador, conseguiu trazer à tona a embarcação e a parte da carga mais volumosa . o que era coisa miúda lá ficou . E foi assim que, naquele meu batismo  de agua, ao penetrar no sertão e que poderia ter me custado a vida , deixei sepultado no fundo do “Rio Jacarezinho”  um belo par de botas , diversos medicamentos e a dispepsia hepática que me apoquentava naquela ocasião. Pois, com a falta de remédios , desapareceu também a doença...

Como não existisse dali para baixo mais corredeira para se temer e ficando a canoa aliviada de uma parte da carga , inclusive de dois cães que estavam em nossa companhia e que ,  ao caírem na nágua , se desatrelaram e se meteram pela mata , mais confiantes prosseguimos a viagem, , juntando-nos  à tarde aos companheiros que nos haviam antecedido na rodada. Na manhã seguinte, navegando já em aguas do “Cinzas” , fomos nos acampar e, definitivamente , quase que na foz do “Laranjeirinhas”, num ângulo formado pelo rio e um riacho de cujas águas  nos servimos. O resto do dia entregamo-nos em roçar e carpir o local, armar as barracas , giraus e trempes  provendo-nos também de lenha.

                                               ***

No dia  imediato, achando-se tudo em forma e obedecendo-se a um programa preestabelecido , deu-se inicio as caçadas. Antes, porém, de entramos na  descrição destas , devo registar que se comentava ainda, e sob  a impressão de horror , em Jacarezinho , o massacre de diversas famílias de caboclos , que habitavam  a foz dos rios Jacarezinho e Cinzas , cujas casas foram também queimadas pelos bugres. Quatro anos atrás. Explica-se, assim, o receio com que os componentes da caravana penetraram naquelas selvas , sendo que alguns o sentiam exageradamente , destacando-se entre esses o Paulo , “cozinheiro” , que de inicio nos declarara que no abarracamento não ficaria sozinho, e por todos os dias tínhamos de destacar um companheiro para fazer companhia ao “valente”...

               

Sendo a caçada de anta , consonância , com a epígrafe desta narrativa , o principal objetivo dessa nossa digressão pelo sertão, tínhamos o cuidado de todas as manhãs iniciar a caçada , soltando os cães sobre os rastros  dessa caça, porém, na maioria das vezes , em vez de anta , vinha ao rio veado. Apesar de todo nosso empenho, só conseguimos abater duas antas durante a temporada.

Todavia, o sacrifício de uma delas  esteve bastante movimentado , com lances emocionantes , que nos deram muito prazer. Pela abundancia , tornou-se a caçada de veado nosso melhor divertimento , convencionando-se entre os companheiros , depois dos dois ou três primeiros dias de caçada , que os veados não seriam mais abatidos a tiros, mas, sim , seguros pelo rabo e afogados. E  era de se ver o desespero , a aflição do animal , quando via uma ou duas canoas  aproadas para seu lado, e, compelidas por vigorosas remadas , se aproximarem deles!

Nessa hora, a caça, como que compreendendo o risco que corria, estremecia-se toda e gemendo,  como se fôra gente, em movimentos rápidos, procurava o barranco , mas geralmente era alcançada antes de galgá-lo , para seu infortúnio...

A caçada de pássaros e a pesca , como complemento das outras, também não estiveram más, garantindo  ao nosso rancho  certa variedade e abundancia de alimentos.

Sentindo-nos à vontade e despreocupados, a vida na barranca nos oferecia indefinível encanto , tornando-nos enamorados da natureza bruta. À noite , enquanto uns se divertiam jogando uma queda barulhenta de truque, outros, à margem da corrente , sob o céu estrelado , ao som da viola dedilhada pelo José Neto , cantavam canções contagiosas e evocativas...

Extenuados , com o dia cheio de emoções e movimento, o cansaço , suprindo o  desconforto da cama, nos proporcionava sono profundo e reparador. Pela manhã , ao nos despertar , em vez do silvo agudo das locomotivas , das buzinas enfadonhas , dos automóveis , do ronco dos aviões e outros ruídos , que caracterizam a civilização , tínhamos  o murmúrio suave da corrente , o tagarelar dos pássaros verdes, que, em bandos e aladas revoadas , cruzavam o rio ; ao lado da barraca , o pio suave do macuco , pouco além o trilhas do nambú, e já na quebrada o cantarolar dos urús...

Estávamos assim no melhor dos mundos, quando o cozinheiro nos deu a decepcionante noticia de que o açúcar e o pó só davam para aquele dia e que o sal , se tivesse que salgar mais carne de anta ou veado não bastaria. Tal noticia , além do descontentamento geral, deu causa a que José Neto  individuo de má catadura , rude e grosseiro , em recriminação acre ao cozinheiro , pela imprevidência e desperdício de alimentos , o xingasse de nomes feios , arrematando com este “cadáver de defunto”!! cujo epíteto – desconhecido para mim- foi o que mais ofendeu o nosso homem...

Sem onde ir buscar aquilo que constitui a vida do caçador , notadamente café, não tivemos que enrolar as barracas e nos pôr a caminho de casa, na manhã seguinte.

Antes, porem, de encerrar esta narrativa venatória , devo contar que, no decurso da incursão , tive uma distração a mais do que meus companheiros. Era que, observando os movimentos do Paulo “cozinheiro” -homenzinho amarfanhado e coxo – cuja sujeira das  vestes já ressaltava, notei mais que, todas as vezes que o homúnculo picava carne , toucinho ou sujava as mãos com qualquer outra coisa , as limpava nos fundilhos das calças, formando de um e do outro lado das nádegas  dois grandes discos , escuros , pastosos e reluzentes... Foi quando , sentindo que a comida feita pelo Paulo não satisfazia mais o meu apetite , que aumentava dia a dia , com a vida movimentada  de caçador , fui-me imiscuindo na cozinha ,e , aconselhando-o e ajudando-o em tudo até mesmo no mexer das panelas e refogar os alimentos , passei a preparar pratos  , tornando- me até especialista em fazer arroz com palmito...

Foi nessas circunstancias que aprendi a cozinhar...

 Retirado da auto biografia de Vitor Ribeiro, filho de Francisco Deocleciano e Ana Candida

                                Descrição de caçadas de veados

Vamos tentar descrever aqui o que seja uma caçada: o que é o veado, qual a função do caçador ou do cachorreiro e como apreciar os muitos e múltiplos trabalhos e habilidades da matilha, quando de boa raça e bem adestrada.

O cachorreiro é a pessoa que se encarrega de preparar a alimentação e zelar pela saúde dos cães limpando-os das parasitas, curando-os não só das inúmeras moléstias a que estão sujeitos, como também das contusões  e machucaduras que sofrem  no decurso das caçadas, além de caçar e trazer a matilha sempre em forma.

O caçador experiente, além de prestar grande auxilio aos cães na procura da caça, pode, pela simples inspeção do terreno, determinar, com certa precisão, a cama do veado e a direção em que correrá, quando perseguido.

E é, em conformidade com este critério, que faz a solta dos cães e indica aos companheiros as esperas.

Revela saber que, em certas rodas de caçadores é considerada uma deselegância carregar espingardas e abater o veado a tiros, pois, ao caçador de raça e de “elite”, o prazer e a ufania consistem em ouvir os latidos e em assistir a pega pelos cães.

Como é sabido, o veado é um quadrupede ruminante que abunda em nossas selvas, sendo diversas as espécies porem, zoologicamente falando, só deveríamos contar existente no país duas castas destes animais, o cervo conhecido também por galheiro, e o campeiro.

O cervo, que é maior que este, se caracteriza pelos chifres em forma de galho e tem por habitat os banhados e margens de rios; o campeiro que é menor , difere também do cervo pelos chifres , cujas pontas são mais finas e apenas três de cada lado , vivendo ,de preferencia , nas campinas de terrenos secos e elevados; ambas são e cor báia , notando-se de um para outro leve variação de tom.

Estas espécies , aliás, já vão se tornando escassas no “hinterland” paulista, por serem muito perseguidas e não disporem de certa defesa , talvez por se tratar de animais grandes.

Agora, temo na família dos corsos – cabra silvestre – que no país é conhecida , em geral , porém erradamente , por veado , mais duas espécies : o mateiro que vive nas nossas matas de cultura e o catingueiro , que se encontra ainda, e com certa abundancia , nas nossas caatingas e  cerradões, sendo aquele um pouco maior do que este , diferindo-se também na cor: o mateiro é pardo e o catingueiro amarelo , tocado a vermelho , sendo ambos bicornes.

Querem alguns de nossos caçadores que tenhamos mais uma variedade de veado , a qual denominam de “Cambucica” . Trata-se de uma espécie menor do que o catingueiro; tipo enfezado , distinguindo-se dos demais pelas velhacadas que usa para enganar os cães, arte em que é jubilado.

Porem , na opinião de outros caçadores – achando -me eu entre esses – não se trata de uma casta diferente, mas sim de um ou outro exemplar degenerado do próprio Catingueiro. Pois , nunca se soube de caçador que houvesse abatido determinado numero desses animais , constituindo casos isolados seu aparecimento.

Da nossa variada fauna é o veado o animal mais corredor e um dos mais ardilosos , usando de vários truques para se livrar das perseguições dos caçadores e dos cães , sendo a remonta dos rastros um dos meios mais comuns de se livrar de seus inimigos , o qual consiste em voltar sobre a mesma trilha , grande distância, após o que desvia em sentido obliquo , e só depois de ziguezaguear , formando verdadeiro signo de saimão , amoita-se.

Uma outra defesa que  comumente usa , são os cursos dágua , os quais procura , quando perseguido , e , tomando pé ou embalado pela corrente , percorre grandes distancias , sem deixar vestígios de sua passagem, constituindo essa uma de suas maiores defesas , ainda mais quando se trata de rio que o caçador não pode transpor.

O cão, como ninguém ignora , é dos animais o mais inteligente , amigo leal do seu dono e, sobretudo reconhecido, predicado este  que, hoje , infelizmente, se vai tornando escasso entre os homens...

Como na sociedade , os temperamentos e os predicados dos componente de uma matilha variam de um para outro animal . em matéria de latido , por exemplo , a escala dos sons é completa, indo em gradação , dos sons mais baixo ate ao mais altos: baixo, barítono, tenor, contralto, meio soprano, e soprano, nascendo dessa variedade de sons a harmonia dos toques ou das corridas , tão apreciadas pelos caçadores.

Uns são exuberantes, no latir, ao passo que outros são sóbrios ; uns latem pelos cotovelos , como muitos homens falam ; uns são verdadeiros , outros são mentirosos. E assim é que para o caçador pouco vale o latir de certos cães, ao passo que o de outros o põe em alerta.

São cães como eram os homens de outros tempos, de que um fio de barba valia por um documento; são animais de confiança, que gozam do prestigio não só perante o caçador, mas junto aos próprios companheiros. A um latido dele, todos acodem pressurosos.

Vale lembrar que, em geral, o cão caçador muda o latido de acordo com a emoção que sente no momento , e o caçador de raça e mestre, , por maior que seja a matilha , conhece o modo de expressar de todos seus cães , e em todas tonalidades. O cão , quando procura a trilha do veado, late espaçadamente e displicentemente , aqui e acolá ; quando encontra a trilha ensaia -está é a expressão – sem certa animação , se a trilha é velha , e com vivacidade e alegria , se é nova ou fresca.

Cada cão tem , outrossim , o seu estilo de trabalhar:  uns são lestos , expeditos e quando perdem a trilha voluteiam diligentemente do centro para a periferia  e em poucos giros encontram novamente a pista ; outros há que , em idênticas circunstancias se atem ao ponto da perdida , insistindo em procurar em espaço limitado.

Chamam-se esses , na gíria do  caçador , raspadores . E existe os que, ao perder a trilha, voltam rastros atrás , consumindo , assim, o tempo num circulo viciosos. Estes cães em geral são eliminados da  cachorrada, por constituir isso um grande defeito  para não por os outros a perder.

Comumente, quando o cão se aproxima do veado e o pressente  saltar da cama, se descontrola todo , sente-se como que engasgado , gane, grita como se estivesse recebendo forte pancadas e só depois de alguns momentos é que recupera a calma e ritma o toque. Nessa hora épica , suprema, o caçado também se desmanda, sentindo  as maiores emoções da vida ; todo seu ser vibra ; é nessa hora que ele se expande , dando o levante com gritos repetidos e acompanhado de salvas. É também neste momento que certos caçadores fanáticos cometem atos de loucura como estes:

Conta-se que um certo caçador , satisfazendo aso desejos de seu garoto , de 6 a 7 anos , o levou na garupa de seu animal em uma caçada , e enquanto os cães trabalhavam , à procura da caça , deixou o pequeno garoto em cima de um toco e, empolgado com o trabalho dos cães e o levante do veado , esqueceu-se do garoto e partiu em desabalada carreira em perseguição da caça, e só a tarde , ao chegar em casa , foi que lembrou do filho .

Ouvi também que outro caçador , estando sentado num cupim, na hora da onça beber agua, supondo estar sentado no seu cavalo , cravou-lhe as esporas , e só depois de advertido por um companheiro foi que deu pelo logro...

Bem, com este esboço , ou ligeiras explanações , está o leitor amigo mais habilitado a acompanhar-me na caçada que passo a narrar.

Transcorria o mês de março, época do ano em que se registravam antigamente as maiores enchentes nos nossos rios: Mogi- Guassú e Pardo – enchentes das goiabas, como as denominavam os nossos antepassados- as quais eram precedidas geralmente de grandes surtos de malária. Hoje, parece nãos que os tempos estão mudados, pois já não chove mais tanto como outrora.

Após chover incessantemente cerca de 20 dias , porem, chuvas daquelas de transbordar córregos , arrastar pontes, derribar barreiras e obstruir caminhos ; chuvas pavor das cozinheiras e das lavadeiras : retardando os serviços daquelas, devido a lenha molhada , e obrigando a estas estender seus varais por sobre os fogões , afim de não deixar faltar roupas à petizada  ; chuvas que prendiam o trabalhador rural em casa, dias a fio , desorganizando -lhe  os serviços.

Resumindo: chuva de gotejar dia e noite ; chuva mulher bonita : daquelas tanto mais desejadas quanto mais depressa aborrecidas ...Finalmente , depois de tanta agua , pela noite começou a ventar, amanhecendo com melhor aspecto ;melhora que se acentuou durante o dia , apresentando um por

de sol desanuviado e rubro, denunciador de bom tempo; cuja mudança pretendia a velha preta – Maria pequenina – Tia Bá – na linguagem da garotada – que se devesse a ela, por ter posto na véspera , mais um ovo , no mourão da porteira , à Santa Clara , e por ter aconselhado à criançada  a revolver todos formigueiros , de redor da casa...

Nessa hora achava-se toda família reunida, inclusive eu, Zeca e Quicas , na varanda da casa grande da “Passa Quatro” , apreciando a beleza do crepúsculo de que já estávamos saudosos , quando aparece o Custódio  , nosso cachorreiro , lembrando-nos de que no dia seguinte daria um ótimo dia de caçada e que deveríamos aproveita-lo para escorvar a cachorrada , mesmo porque se aproximava o tempo de aceitarmos o desfio do nosso amigo Adolfo Melchet , de misturamos a cachorrada, afim de ver qual  dos nossos cães seria capaz de por os pés adiante dos deles.

É oportuno dizer aqui que este Custódio em apreço já caçava conosco há tempos , tendo-nos vindo de São Simão recomendado pelo tio Vicente Ribeiro e a pedido da Família Adorno , de Mogi Mirim  , a quem servira por muitos anos, exercendo o mesmo mister. Era um fiapo de gente; baixo, magro, de ossos salientes e de olhar sem muita expressão. Porem, quem o visse assim, não diria que era o mesmo homem, quando caçava; tudo nele transmudava , tornando-se dinâmico ,sendo simplesmente empolgante quando dava um levante.

Seu grito era volumoso, forte e límpido, sem tremores. Gritando sucessivamente e ritmado , conseguia formar uma corrente de ecos , que , esboando pelos socavões das matas , ia longe, de quebrada em quebrada , a tudo despertando , entusiasmado !!

Anuindo à lembrança  do caboclo , demos-lhe ordem para que providenciasse tudo, afim de que pudéssemos sair no dia seguinte, ao amanhecer , e assim foi feito.

Os cavalos caçadores foram postos de cocheiras; os cães encerrados no galpão , facilitando atrela-los na hora da partida; as garruchas de salvas foram descarregadas e carregadas de novo com pólvora fresca, ficando a cargo da Maricota providenciar a matula. Correndo tudo como desejavam, no dia imediato , ás 5 horas da manhã , estávamos a caminho do capão redondo , que ficava na divisa , e que fazia corpo com as matas do Bem Palma, onde sabíamos andar passeando um casal de mateiro.

Mas acabava o dia de raiar , em pleno albor, desatrelávamos a matilha , a qual , vadia como estava , embrenhou-se pela mata em borbotões e sob hilaridade ensurdecedora , produzida pelo ladrar dos cães novos.

Dando tempo a que abrandasse tais ardores , nós nos pusemos a rastejar pela estrada , até que o Custódio  , numa baixada , deu com  o rastro do veado, gritando; “Passou por aqui ! é mateiro e macho ! garanto !”. tendo o bicho atravessado a estrada em sentido oposto ao da solta , incontinente repicamos as buzinas e gritamos , procurando atrair os cães ao local em referência. Apesar da matilha já ter penetrado fundo no âmago da mata , e achar-se espalhada em todas as direções , não foi difícil conseguir-se o seu retorno e, a medida  que iam chegando os seus componentes nós lhes íamos  apontando a trilha certa , de sorte que, pouco depois tínhamos a cachorrada  novamente reunida , já então sem aqueles ímpetos do começo.

Principiou ai , propriamente, o trabalho dos mestres , dos veteranos. O primeiro a pegar a trilha  foi o velho cachorro Cupido e na sua esteira se encaminharam o Alegre , a Lembrança, a Certeza , o Famoso, o Desempenho, o Volante, a Granada e outros. Os simples e espaçados ensaios do começo , foram-se amiudando e, em crescente nervosismo e entusiasmo , dos quais nós, também , já nos sentíamos contaminados, principalmente o Custódio , que, já então gritava animadamente , repetindo, ora o nome de um , ora de outro cão. E assim, numa emulação reciproca, verdadeiro desafio , nós , correspondendo aos latidos alegres e nervosos dos cães, dávamos gritos de incitamento e -digo bem – de aplausos , ate que chegou a hora épica!

Foi quando o Custódio , sacando e armando a garrucha , gritou: esta na hora ! esta na hora! e, de fato. O estampido da primeira salva confundiu-se com a batida da Lembrança , a qual gritou por espaços de alguns segundos como se estivesse recebendo fortes pancadas.

Logo após o eco de outra salva se harmonizou com o levante do Custódio , que já atroava pelos grotões abaixo! Nesse momento supremo , não era só nós que nos sentíamos emocionados e de cabelos arrepiados , eram também as nossas próprias alimárias , que, de olhos arregalados e de orelhas em pé , mascando os freios e escarvando o chão , compreendiam que havia chegada o momento da arrancada!  Atendendo as salvas , aos gritos de levante e aos repiques de buzinas , os cães que se achavam espalhados mais ao longe , em correrias convergentes , um a um, foram entrando no toque , de sorte  que, em poucos momentos , a matilha se achava  toda agrupada , formando um verdadeiro conjunto musical e de ... pancadaria , pois eram 24 as figuras. A corrida, depois de descrever um semi-círculo no coração da mata , enveredou pela “Serra do Rola Abobora” abaixo. Nessa hora até a mata tremia , tal era a nossa impressão , e a todos quantos fossem dado assistir o espetáculo tão sensacional , quão pouco comum.

O Custódio, recomendando-nos então que, dando a volta pela cidade , fossemos esperar no pasto do Via Real , partiu em desabalada carreira, por atalhos, afim de não perder o contacto com a matilha. Nós , eu , Quincas e Zeca , detendo-nos por alguns momentos no alto da lavoura do Bem Palma apreciávamos a corrida , admirados da agilidade do Volante e da Granada  , os quais tendo saído do alcance , já tocavam no entanto , na dianteira da cachorrada. Esses dois cães não desmentiam a raça , eram mesmo pegadores de veado !   

Sendo longo percurso que tivemos que a fazer , quando chegamos ao local indicado pelo Custódio , já lá estava  ele e em plena perdida. Tratando-se de um pasto , muito rapado , onde se encerravam gado vacum e porcos , e todo recortado de trilhos , diante de tais obstáculos  , os cães não tiveram como se embaraçar, perdendo a trilha do cabrito. O local não podia ser mais propicio à perdida, e só depois de grande auxilio nosso aos cães , circulando e rastejando aqui e ali , foi que conseguimos a nova pista , mas, tão logo essa foi localizada , a Certeza desamoitava o bicho , dando ao Quincas oportunidade , por se achar mais perto , de dar as salvas e o levante da pragmática , e o Quincas sabia faze-lo  , talvez , sem desvantagem do Custódio , pois ele tinha bom grito e era também exímio caçador. A corrida que rumou para o lado do Ibó , foi ainda animada , posto que sem os excessos e ardor da primeira.

Tivemos ai a segunda perdida , que , como a primeira  , nos deu bastante trabalho , por ter o veado caído no ribeirão e seguido o curso do mesmo em mais de um kilometro ; sentindo nos a essa hora já um tanto cansados e com muita fome , lembramo-nos do virado ainda mais que estávamos á beira dágua e, embora sentados e comendo , íamos estimulando os cães , dentre os quais , um ou outro , apesar da fadiga , ainda trabalhava diligentemente. Estávamos naquele pequeno repouso repastando e comentando alguns lances da caçada , quando a Formosa , de simples ensaio , passou a dar barroadas , e foi quando o Custódio , levantando se num salto . sacou da garrucha e gritou: “vai espirrar ! e não se enganou! Junto aos ganidos afobados da cadela , que parecia levar de vista a caça , soou a salva do Custódio e, com o mesmo vigor da manhã, reboou o eco de seus gritos! Juntando o virado ás pressas e tomando de salto os animais , acompanhamos a corrida que rumava rastro atrás , ou em direção ao ponto donde havia partido.

Acompanhando mais de perto o toque, o Zeca, e o Quincas  , que conheciam bem o valor e as particularidades de certos cães , que, á medida que se aproximava da caça, modificavam o latido , começaram a gritar: esta no dente! Berra já ! e com efeito. Ao chegar de retorno ao pasto do Vila Real , a Granada , que se destacara do grosso da matilha , alcançando a aparelhando-se pegou pelo pescoço e deu o tombo no mateiro.

O primeiro a chegar ao local foi o Zeca, que, em consonância co a pragmática , descarregou a garrucha e repicou a buzina , cujos gestos foram  imitados por mim, Custódio e Quincas , à medida que fomos chegando.

Pois aquelas salvas, aqueles gritos e os repiques de buzina significavam para o caçador o epilogo da peleja , o regozijo pela vitória final. Era de se ver também como os próprios cães , com ares vitoriosos ao aproximarem -se da caça já abatida , a mordia , e, nervosamente a sacudia, , como quem tivesse a dizer: conheceu ?...

Depois de um ligeiro descanso , dando-se também tempo de reunir alguns cães que haviam ficado para trás , e do Custódio engarupar o cabrito , nós nos pusemos a caminho de casa. Presenciamos então um episódio que, pelo seu pitoresco, nunca esqueci. Cansados e com fome , todos : caçadores , cães e as próprias alimárias , subíamos a serra lentamente,   passo a passo , quando o Zeca , que já andava morrendo de amores pela Ambrosina , todo agoniado , começou a cantar uma canção dolorida e- por que não dizer ?- desafinadamente , pois já é proverbial que, em matéria de musica, Ribeiro nem assobiar sabe , quando um caboclo , que estava no mato a tirar cipó , gritou : “Uai , moço , o que é que tem mecê para estar chorando assim , o que lhe aconteceu de mar? “ A cujo dito o mano , indignado, e com um  palavrão.

Mas o caboclo, não se dando por achado, retrucou “ que culpa tem eu, moço , de mecê estar chorando , pois isso que mecê vai espremendo aí não é cantiga nem aqui nem em parte alguma”.

O Zeca, a esse novo remoque , já indignado , ameaçou dar um tiro no insolente , o que, dessa vez , voltando às boas  , respondeu: “não precisa se zangar moço, vai com Deus”, e assim, encerrou-se o diálogo. Esse episódio , que serviu para  caçoarmos com o mano durante muito tempo, recordo hoje com comovedora saudade por evocar as memorias de dois irmãos queridos: Quincas e Zeca , os quais não pertencem mais a este mundo...