terça-feira, 17 de agosto de 2021

                          Adivinha? (Zezinho Manuel Barra Seca)

Meu pai tinha um amigo, que de tão amigo parecia parente. Era Seu Zezinho Manuel, filho do José Manuel Bento de Castro. Era casado com Dona Lurdes Coldibelli e formavam um bonito casal: ele era alto, claro, de olhos azuis e ela uma italiana morena-clara. E quando seu filho José Benedito se casou com minha prima Maria Cecília, aí ficou mais próximo ainda.
Seu Zé era muito trabalhador, honesto, alegre, um exemplo de pessoa. E tinha como passatempo caçar e pescar. Quando o rio Itararé foi represado e virou represa de Xavantes, a represa veio parar a uns duzentos metros da sua casa. Ainda bem que ali era pasto! A plantação de café e cereais ficava para cima da casa, num lugar mais alto, então não teve prejuízo.
Meu pai, Mário Vieira Palma nos contava as estórias dele e eu resolvi escrever. Pois bem:
As terras eram herança de seu pai e tinha como vizinho seu cunhado Alício. Uma vez, depois de ter colhido uma roça de milho, vieram muitos inhambus, que aqui chamamos de lambus. Então ele e o cunhado resolveram caçar. Como não tinham pelotas, foram pegar barro de olaria perto do ribeirão (naquele tempo ainda não estava represado). Foram de tarde, depois do trabalho e combinaram que iriam jantar e depois fazer as pelotas. O Alício foi na casa do Seu Zé. Então eles foram para a varanda, ele acendeu o lampião e ficaram conversando e fazendo as pelotas, cada qual com seu punhado de barro. O Alício terminou primeiro e perguntou para Seu Zé: adivinha quantas pelotas eu fiz? Ele respondeu: Oito dúzias e quatro pelotas. Foram contar e deu exatamente esse número!
Noutra ocasião, ele tinha ido a Fartura fazer compras e aproveitou para descansar um pouco na praça. Nisso veio um seu conhecido da cidade, sentou e ficaram conversando. Naquele tempo vinham grupos de ciganos e ficavam acampados perto da cidade. Viram uma cigana passando e seu conhecido falou: Seu Zé, vamos pedir para a cigana ver a nossa sorte? Ele respondeu: não precisa, eu sei ver a sorte! O outro falou: Duvido. Então vamos ver se o senhor sabe mesmo...Adivinha quanto de dinheiro tenho no bolso. Seu Zezinho Manuel respondeu: Sete reais. Ele enfiou a mão no bolso e tirou seis reais. Olhou para seu Zé e falou que ele tinha errado. Então Seu Zé falou para ele procurar de novo e ele remexeu os bolsos e encontrou mais uma moeda de um real! Ele ficou boquiaberto.
Também teve o caso da pescaria, mais recentemente, quando já tinha a represa. Seu Zé tinha um barco e sempre convidava os amigos para irem pescar. Ele gostava que fossem dormir no rio, ou seja, acampar à beira do rio. Então foram numa sexta-feira, Seu Zé, meu pai Mário, o Dito do Tibúrcio e Seu Zé Vilella. Atravessaram a represa e foram montar o acampamento do outro lado. Chegando lá, primeiro armaram as redinhas para pegar lambari, porque iam fazer arroz para comer com lambari frito. Depois armaram as redes de malhas maiores que iriam ser retiradas no dia seguinte. Então tiraram os lambaris da rede, limparam, temperaram e fizeram a janta. Ficaram então à beira da fogueira conversando. Conversa vai, conversa vem, e o Dito falou: Seu Zé, adivinha o que tenho no bolso? E o Seu Zé: bala! Nossa, o Dito ficou desenxabido, achou que ele nunca que iria adivinhar....
E meu pai um dia perguntou a ele como se fazia para adivinhar e ele respondeu que o segredo era não pensar. A pessoa perguntava e ele respondia o que vinha na cabeça! Pura intuição!



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